sábado, 9 de novembro de 2013

Minha primeira experiência com musicalização infantil: uma tragicomédia da vida real

Era uma vez... um estudante de música apaixonado por educação que foi atrás de um anúncio para dar aulas de violão e musicalização infantil. Este era eu, lógico. Muito feliz, esperançoso com a experiência que isto proporcionaria, fui eu para minha primeira aula.

Na manhã do dia 21 de maio deste ano (2007), uma segunda-feira, só compareceu uma menina de 5 anos. A dona da escola insistiu para que eu desse aula e deixou o filhinho dela de 2 anos para ser mais um aluninho... Para começar, eu sei que não deveria ter aceitado as condições. Mas com receoso de estar idealizando demais as condições de trabalho, resolvi aceitar.

Enquanto a mãe da menina e dona da escola foram para a aula de flamenco as duas crianças ficaram comigo para a aula de musicalização. Chegando na sala comecei pelo reconhecimento do terreno: "Como é que vocês chamam? Do que vocês gostam?..." A menina interagiu bem. O menininho, totalmente deslocado, estava um tanto autista... nem dava bola pra mim. Então resolvi partir para a prática: cantei e toquei ao violão uma música para eles (A Zeropéia, de Herbert de Souza). Depois procurei saber a impressão deles sobre a "musiquinha". Minha intenção era explorar ao máximo aquela música.

Até os 2 anos de idade aprendi que a criança está basicamente na fase de exploração dos sons, enquanto que aos 5 eu não tinha noção de como trabalhar. Então depois da música optei, basicamente, por tirar os instrumentinhos da mochila e apresentar a eles os sons que eles podiam fazer... Enquanto eu apenas estimulava o de 2 anos a experimentar os intrumentinhos, com a menina eu tentava conversar sobre as características daqueles sons. Começou então meu suplício. O menino de 2 anos começou a bater em tudo com a flautinha de bambú. Eu, obviamente, pensei comigo: "Ah, deixa ele... ele está explorando os sons..." Eu sempre preguei que era errado reprimir a criança batucando qualquer coisa...

Enquanto eu tentava conversar com a menina, o menininho batia cada vez mais forte a flautinha, agora nas cordas da cítara. Eu e a menininha piscávamos de nervoso a cada batida que doía nos ouvidos. Comecei a ficar preocupado porque as cordas eram de aço e se arrebentassem poderiam machucar um dos dois. Enquanto eu pensava numa maneira de tirar a flautinha da mão do menino sem fazê-lo chorar a menina rapidamente agarrou uma ocarina mais coloridinha e mostrou para o menino... ele então foi parando de surrar a cítara e eu consegui pegar a flautinha, enquanto ela escondia muito espertamente a cítara, que depois da última flautada arrebentou uma de suas cordas (mas graças a Deus não machucou ninguém).

Eu, pasmo com a esperteza da menina e com minha incapacidade, resolvi dançar a música (agora tocada no CD) com eles para gastar um pouco da energia destruidora do menininho e aproveitar para experimentar um pouco de expressão da menina como resposta à música que escutávamos. Basicamente o resultado foi: numa música de no máximo 3 minutos, a menina brincou de coreografia 1 e meio e o resto do tempo ela ficou olhando para o nada, de saco cheio da minha dancinha. O menino, lógico, ficou em pé mas não fez nada, nem olhou pra mim. Se ao menos a dancinha tivesse surtido algum efeito eu não teria me achado tão ridículo assim. Mas, não foi o caso. Hoje, toda vez que ouço essa música novamente tenho um impulso incontrolável de me esconder de vergonha.

Em certo momento a menina, sempre muito delicada, me perguntou sagazmente: "Você dá aulas pra outras crianças?" Menti: "Claro". Aquela geniasinha da psicologia moderna perto de mim me deixou com a cara no chão e eu me divertia com essa situação... Mais ao final da aula ela, tão delicada para não deixar eu perceber que ela sabia que eu não tinha experiência nenhuma, deu o fora mais delicado que eu já recebi de um aluno: "Professor... eu acho que eu não vou poder vir semana que vem, porque eu vou ter aula de ballet". Eu segurei o riso e disse "tudo bem eu acho que eu também não vou poder vir porque..." e inventei qualquer desculpa.

Então terminamos e eu fui conversar com a dona da escola que eu não tinha condições de dar aquela aula, que além de eu ser muito inexperiente ainda, eu precisaria de uma turma mais homogênea quanto a faixa etária. Tentei explicar a delicadeza da situação de se trabalhar com crianças pequenas, que eu não queria forçar a barra porque até certa idade as falhas na educação podem causar traumas significativos... Mas este esforço obviamente foi em vão. Ela insistiu, mas sem querer contrariar meus princípios (e, claro, com medo de arriscar) fui embora.

Educação Musical Infantil está longe de ser recreação como propõem muitas escolas. É um assunto muito sério pois as experiências da infância ficam marcadas para o resto da vida (se não conscientemente, inconscientemente, o que é pior). Então, é muito importante que se saiba o que não se deve fazer numa aula de musicalização. Este é o primeiro passo. Mas é primordial que se saiba não somente o quê, mas como fazer. Cada idade tem suas peculiaridades. Ter o domínio deste conhecimento é, na minha opinião, o segundo passo para se lançar na aventura de ser um musicalizador infantil.