sábado, 13 de outubro de 2007

A origem de uma questão de pesquisa

Desde que ingressei na universidade (2005) eu não tive mais aulas regulares de violão e, durante este tempo, não consegui desenvolver uma disciplina diária de estudo, ora por não priorizar o instrumento (em função da faculdade), ora por questões econômicas (por não poder pagar um professor). Como era de se esperar, vinha perdendo, gradativamente, técnica e repertório e isto me incomodava. Bem, não poderia deixar isso barato! Eu tinha que descobrir uma forma de reverter ou reparar essa situação. Mas eu também não tinha idéia de porquê que eu precisava de repertório e técnica.

Naturalmente no primeiro ano de faculdade eu fiquei igual “pinto no lixo”, totalmente desorientado. Eu queria tudo e não sabia o que queria. As típicas crises de identidade de calouro me atacaram semestre sim semestre não, até que aos poucos eu fui me resolvendo. Meus objetivos estavam ganhando uma silhueta e com isso meu estudo ganhava mais direcionalidade. Desde cedo minha intenção era a de me formar aproveitando ao máximo a universidade.

O raciocínio parece simples. Há um objetivo: uma habilidade a ser desenvolvida, por exemplo. O professor é o cara que então deverá mostrar ao aluno caminhos até este objetivo, orientá-lo. Eu gosto de ensinar. Preciso aprender. Não tenho professor. Solução: se vira, ache o(s) caminho(s) por conta própria, pensei. Tarefa difícil... Grande parte da obsessão que tenho em querer desenvolver métodos, estratégias de ensino e aprendizagem vem não só do gosto pela educação, mas também da necessidade de resolver meus próprios problemas. Da mesma forma que às vezes tenho que quebrar a cabeça para explicar um assunto a um aluno, propus-me “ensinar a mim mesmo”. E como é difícil achar a saída de labirinto quando se está dentro dele... Mas não é impossível!

As poucas aulas de improvisação que tive (até hoje) focavam basicamente o Jazz e a Bossa-nova. Sempre me incomodei com isso: ter que aprender Jazz para poder improvisar... choro! Não estava certo. Deveria haver aí algum mal entendido. O que era improvisação para mim? Eu não sabia. Sem definir conceitos fica difícil mirar no objetivo e sempre se pega um atalho equivocado. Muitas vezes a solução está na sua cara...

Qual é a forma mais tradicional e popular que existe de se aprender a tocar algum gênero musical? Tocando. No jargão: tirando “solinhos”, tirando “harmonia”, nas rodinhas de amigos, de choro, de samba, luais, escutando muita música, como todo moleque faz compulsivamente quando está naquela “fissura”. É como um bebê árabe aprende a falar árabe: na tora! E já dizia Noel: “Ninguém aprende samba no colégio”.

Espero não ter chegado a uma conclusão equivocada, mas assim como o árabe, um gênero musical poderia ser aprendido como se fosse linguagem (e não é?). Olha só o que Robert Zatorre diz em um artigo seu – Music, the food of neuroscience? – publicado na Nature, revista científica altamente conceituada:
... the ability to organize a set of words into a meaningful sentence and the ability to organize a set of notes into a wellstructured melody might engage brain mechanisms in a similar way. (p.313)
O raciocínio parece bem lógico assim. Se você cresceu em meio à rodas de samba, improvisar versos de um partido-alto talvez seja muito natural. Se você cresceu em New Orleans há algumas décadas atrás o Blues e o Jazz correm em suas veias como sangue. Porquê? Porque sua Percepção Musical foi construída nesses estilos. Por mais que se faça cursinho só se tem fluência numa língua depois de morar um tempo no exterior – não é? –, escutando aquele idioma exaustivamente. Mas será que só assim que se aprende a improvisar? Onde está a trilha por onde os chorões passam até a improvisação. Descobri-la talvez não facilitaria a vida de um músico profissional? Como os fundamentos da improvisação musical! A busca por essas respostas me obrigava a conceituar cada vez mais meus objetos, e minha visão subia um pouquinho mais alto a cada insight.

Na minha opinião uma improvisação coerente sempre “diz alguma coisa”. Diz porque utiliza uma linguagem, compreendida pela percepção musical. E diz através de um instrumento, que utiliza sua significação mais óbvia: um meio, uma “ferramenta para”. Mas ninguém aprende a “falar” do dia pra noite. Como se aprende a falar? Balbuciado, não é? Reconhecendo e internalizando os códigos musculares de todo o aparelho fonador, até que depois de muito treinar sai um “ba”. Então – pasme!!! – a afixação dos conservatórios por repertório seria um ponto até muito “positivo”, pois constrói todo código muscular, que possibilita o domínio do instrumento. Além do que, há momentos para se ensinar cada coisa. Não seria fácil, às vezes, explicar seus parâmetros de estudo – que precisaram de anos (muitos anos) cumprindo etapas, acertando e errando metodologias, para que hoje seja algo muito claro para você [professor] – a um aluno muito cru. O problema é que é muito comum um aluno alcançar uma técnica sólida e ninguém falar pra ele para largar o violino e começar a ler mais, para então amadurecer como músico. Muito pelo contrário, cobram cada vez mais a técnica, não é?

Então, voltando ao assunto, um músico improvisa. O que se passa? Que conexões mentais ele faz? Como ele entende o que ele faz? Enquanto eu não sei, começo por mim mesmo. Como eu improviso? E quando parei para pensar nesta questão foi que minha noção das formas de intervalos começou a ficar mais clara. Parti para o diagnóstico. Minha percepção musical sempre foi suficiente, nunca me deixou na mão. Minha dificuldade improvisar estaria no instrumento? Então o teste: imagino uma melodia e tento reproduzir em seguida ou instantaneamente no violão. Tudo ok! - aqui eu descobri que minha improvisação é baseada em fôrmas de intervalos. Não constatei nada nesta conexão [mente/instrumento] que eu não pudesse resolver com um pouco de treino. Então porquê não consigo improvisar uma baixaria maravilhosa daquelas se eu consigo escutar e reproduzir cada passagem? Por que eu não tenho criatividade para elaborar as frases próprias ou porque eu não domino a linguagem ainda! Conheço palavras, conjunções, sei algumas frases prontas, mas isso não me dá fluência num diálogo. Era o que me faltava: o domínio da linguagem. Linguagem esta, que quanto mais eu escutasse mais eu seria capaz de compreender e dialogar com ela.

Assim, na minha concepção atual eu dividiria a habilidade de improvisar em três momentos: percepção musical (processos cognitivos, neurofisiológicos), domínio do instrumento (controle motor fino) e o conhecimento da linguagem (alvo da improvisação, vocabulário musical). O conhecimento da linguagem estará sujeito à tradição do gênero. Por exemplo: pra ter fluência no choro tem que se freqüentar as rodas. Dominar um instrumento musical significa para mim tê-lo como uma extensão do próprio corpo, reproduzir através dele qualquer som “percebido” ou seja, traduzido por sua percepção musical. E uma melodia criada também passaria pela Percepção Musical: você a escuta internamente.

Apesar do título, o foco desta reflexão me parece ser a improvisação, justamente uma grande dificuldade que tenho. Mas o que eu fui capaz de diagnosticar no meu tocar (o "como eu entendo o que faço") é mais ou menos assim: se eu entendo o que foi dito eu sei como repetir ou reformular o que foi dito de maneira coerente. Conhecer a linguagem é saber quando e onde dizer o que sei num diálogo, ou monólogo.